quinta-feira, 5 de março de 2009

Invasor - Primeiro Capítulo

1
Era outra daquelas terças-feiras modorrentas. Todas as pessoas na cidade tinham uma expressão simples que dizia: “Acordei hoje de manhã, mas me arrependi”. Os termômetros marcavam 13°C, o que era normal nesta época do ano em Roule County.
Como era de se esperar, ninguém entrara na Paragon, desde que ela abrira às 15:00 até o horário dela fechar, às 21:00.
A porta estava fechada, mas a grande tela de vidro dava uma boa visão do interior da loja, apesar de estar um pouco embaçada; havia pequenas estantes com objetos, atrás de finas vidraças, em demonstração no centro da loja. Para os lados, estantes maiores com livros, vasos, estatuetas. No centro, depois das pequenas estantes, o balcão, com um computador, um telefone e uma grande quantidade de papéis. Nos fundos, haviam estátuas um pouco maiores, bustos, e algumas armas decorativas de bronze e materiais semelhantes. Mas as verdadeiras jóias, como talismãs, anéis, selos e afins, ficavam no andar acima numa gaveta da cômoda do proprietário.
Adam estava sentado na cadeira atrás do balcão, com os pés para o alto, lendo um livro que parecia ter sido mergulhado em graxa. A capa era negra e de aspecto úmido, gorduroso. Tinha a grossura de um pulso e o título em letras douradas e gastas dizia: “Enciclopédia de Evocação do Ilusionista”. Era um dentre as centenas de outros livros que a Paragon tinha, todos velhos e carcomidos pelo tempo. Adam achava que aquele título era, inclusive, bastante comum em perspectiva com os outros. Já passava da hora de fechar, mas ele estava um tanto distraído com o capítulo que detalhava ilusões que evocavam imagens de pessoas, tão reais quanto um reflexo no espelho. Ele mascava um chiclete de canela, enganando o estômago até o jantar. Adam detestava canela, mas era a única coisa que tinha no bolso. Preguiçoso, como diria o outro.

O soar do sino acima da porta da loja desviou sua atenção para a entrada. Adam viu a porta abrir e fechar, mas ninguém entrou.
Curioso, ele puxou o marcador de cima do balcão e colocou sobre a página 119 do livro. Levantou-se da cadeira e correu o olhar preguiçoso pela loja, vendo o que já esperava ver.
Uma gata branca caminhou devagar na direção do balcão e saltou para cima do mesmo, arqueando as costas para receber o carinho de Adam. Ele sorriu e sentou-se de novo, voltando a ler o livro. A gata desceu e fez seu caminho até os fundos da loja, onde um pequeno pires com leite a esperava, todas as noites. Ela sempre aparecia, às vezes com regularidade, às vezes com intervalos de três dias. Mas aquele olhar felino era mais familiar para Adam do que qualquer cliente que ele já tivera. Deixou estar e voltou a ler.
Lá fora, as gorduchas nuvens fizeram a chuva começar a cair, lenta e silenciosamente.
O jovem antiquário não percebeu. Era péssimo para notar qualquer coisa que não se apresentasse bem debaixo de seu nariz, e seu avô sempre o alertava disso. Mas agora ele era um adolescente sem família, com diversos maus hábitos sem ninguém para reprimir. Muitos de seus amigos achavam que deveria ser uma deliciosa sensação de liberdade, e de certa forma Adam se sentia mais independente, livre.
Mas iria arrepender-se de ter deixado seu avô morrer sem ter-lhe dado ouvidos.

2
A próxima hora passou, e os ponteiros do grande cuco ao lado do balcão indicavam 21:31. Ainda chovia. Ainda se encontrava, no vidro da loja, a placa de papelão com as letras de forma que diziam: Aberto. No entanto, Adam não estava mais lendo o excêntrico livro. Adormecera, e ali naquela cadeira, com o pescoço tombado para o lado e o livro aberto no colo, dormiria até que o cuco marcasse, com seus velhos ponteiros, a chegada da meia noite.

3
O badalar do relógio fez Adam despertar num susto profundo. Foi como aquelas vezes em que mesmo antes de abrir os olhos para tomar consciência do mundo, seu cérebro já se dá conta da verdade. Você dormiu enquanto lia. Ele projetou-se para frente, para sair da cadeira, mas esqueceu-se que seus pés estavam sobre o balcão, e tudo o que conseguiu foi cair sobre o carpete marrom. Xingando, levantou-se. Tudo estava escuro, e ele estranhou. Esfregou os olhos, e ouvindo o barulho da chuva do lado de fora, deu-se conta de que todas as luzes estavam apagadas, inclusive as do outro lado da rua. Parecia ser um blecaute. Ainda que tivesse certeza do corte de energia, tentou acender o abajur sobre o balcão, sem resultado. Viu também que a placa da loja indicava que estava aberta. Isso o preocupou levemente, alguém poderia ter entrado e roubado algo.
Foi quando se tocou. Alguém pode ter entrado. E de fato, ainda poderia estar ali dentro. Movendo-se lentamente, como se pudesse ser visto e baleado por alguém, Adam colocou a mão debaixo do balcão e pegou o velho taco de seu avô. Era de madeira e tinha na base uma espécie de dedicatória em garranchos que o próprio velho nunca entendeu. Esse pensamento suspeitoso não é absolutamente comum numa situação dessas, mas Adam sabia que Roule County deixara de ser um lugar tranqüilo antes mesmo dele nascer.
Com a arma erguida sobre o ombro direito, foi para os fundos da loja, onde se fica uma escada de ferro em espiral que leva até o andar de cima, até sua casa. A escada balançou conforme os passos cuidadosos de Adam, mas foi silenciosa, e ele deu graças por isso.
Chegando ao andar de cima, no corredor, olhou ao redor a procura de qualquer coisa que pudesse estar fora do lugar. Nada.
Sentiu algo roçando em sua perna e não precisou olhar para saber que era a gata. Ela tomou a dianteira e entrou na última porta da direita, a cozinha. Os ouvidos atenciosos de Adam ouviram alguns ruídos e ele se precipitou para o fim do corredor, sem olhar nas portas anteriores. Ao lado da porta da cozinha, parou por um momento, sentindo o coração bater forte.
Decidido, ele entrou.
Derrubados no chão, estavam diversos pacotes de biscoito, além de uma garrafa de leite quebrada. Ao redor do leite derramado, havia três gatos de rua muito sujos bebendo em silêncio. Adam suspirou aliviado sorrindo. Olhou para a gata branca que agora estava sentada em sua pia.
Deixou o bastão ao lado da geladeira e a abriu. Afinal não era nada, apenas uns amigos da gata branca. Bem que lhe tinham avisado que dar comida pra animais de rua não era bom, pois eles sempre traziam seu bando. Disperso, Adam pegou um copo de leite pela metade que tinha deixado ali de manhã e bebericou. Não estava tão ruim. Entornou.
O telefone tocou no meio do gole e Adam tomou um susto tamanho que deixou o copo cair e engasgou.
Batendo com o punho cerrado no peito, atravessou o corredor até seu quarto e tirou do gancho o telefone que ficava ao lado do computador. Ninguém na outra linha; completamente mudo. O jovem antiquário disse alô algumas vezes, mas sem resposta ali. A resposta veio de baixo. O telefone de serviço da loja estava tocando. Estranhando, Adam desceu sem muita pressa. Afinal, já passava da meia-noite e ele não era obrigado a atender ninguém de prontidão.
Chegando sobre o balcão, tirou o telefone do antiquário do gancho. Era um telefone muito velho, com aquela rodela para discar. Nenhum sinal de presença do outro lado da linha. Correndo o olhar pelo balcão, sem procurar nada especial, Adam notou o monitor do computador ainda ligado iluminando seu rosto. Com um suspiro, ele o desligou.
O susto que ele tomou, não foi daqueles em que se salta, engasga ou grita. Foi um susto silencioso. Olhos arregalados e pulmões repentinamente cheios de ar. Grito preso. Voz sumida. Este tipo de susto.
Pela tela negra do monitor, Adam viu o reflexo de um homem nas escadas. Não teve tempo de notar como era o homem, nem em que posição estava, mas Adam viu algo ali.
Virou-se rápido por instinto, mas não havia nada. Normalmente ele não tomaria este tipo de atitude, mas a primeira coisa que pensou foi no bastão. Tinha deixado-o lá encima.
Ligar para a polícia.
E foi o que ele fez, tremendo de medo e preocupação.

4
Muitas cabecinhas se esticavam pra fora das janelas da rua para ver o motivo da viatura parada em frente ao antiquário Paragon. “Não há nada pra se roubar nessa loja”, pensavam.
O rapazinho que se tornou dono há pouco tempo estava sentado no meio fio, enquanto ouvia sem interesse o guarda comunicar pelo rádio que não havia anda de errado.
Adam esperara pacientemente pelas autoridades no andar de baixo, perto da porta de saída e pronto para fugir caso o invasor descesse novamente. Mas ele não desceu e Adam começou a se perguntar se de fato alguém subira.
— Sr. Savage. – cumprimentou uma voz seca atrás do jovem.
Adam olhou por cima do ombro já sabendo quem veria. Martin, o chefe de polícia local. Martin Belmont. Não sabia por que o estava tratando com formalidades. Era pai de um de seus melhores amigos.
— Oficial Belmont. – respondeu, levantando-se e esfregando as mãos. Adam fazia muito isso quando estava constrangido ou nervoso.
— Pode dormir tranqüilo esta noite. Não encontramos ninguém. Se der falta de algum dos seus pertences, pode nos chamar. Em todo caso, o policial Geoffrey vai passar a noite aqui. Sinta-se seguro.
— Vou ficar bem, Martin.
O policial torceu o nariz e olhou de esguelha para o parceiro na viatura. Pareceu não gostar de ter sido chamado pelo nome agora que estava em serviço.
— Foi mal. – disse Adam ao perceber, e Martin não pôde evitar um sorriso. Sempre comentava como achava engraçadas e curiosas as gírias que ele e seu filho usavam.
— Tenha uma boa noite Adam. – eles apertaram as mãos e Adam entrou, indo direto para seu quarto.
Os gatos ainda estavam na casa, não mais na cozinha, mas espalhados por aí. Farelos de biscoito, bolas de pêlo, manchas de leite e de patas sujas. A preguiça levou Adam a decidir que não limparia nada hoje. E talvez nem amanhã. Sábado possivelmente. Depois desta importante decisão, ele foi se deitar. Já passava das duas.

E assim terminou a primeira de muitas noites incomuns de Adam.



— Meu pai foi à sua casa?! – perguntou Peter por cima do ombro. Estava sentado na frente de Adam durante a monótona aula de História enquanto ele contava aos sussurros sobre a noite anterior.
— Shhh! Fala baixo! – censurou Adam.
Peter sentou-se com boa postura novamente, fitando sem ler na verdade as palavras borradas no quadro. O alto e magro professor já estava apagando-as e nenhum dos dois rapazes havia copiado nada. O sinal berrou pelos corredores, arrancando suspiros de alívio de alunos por toda a escola.
—Acha que a Ingrid vai nos emprestar as anotações dela de novo? – perguntou Peter, enquanto os dois se levantam.
Os dois olharam de relance para a garota que se levantava no meio do lado esquerdo da sala. Tinha os cabelos castanhos soltos até as omoplatas, caindo pelos ombros sobre a blusa branca. A cor avermelhada de sua pele somada ao desenho de seus olhos e sobrancelhas a faziam muito parecida com uma índia norte-americana, mas ela dizia que seus pais eram europeus.
— Ela não vai nos negar, só vai reclamar. – Adam guardava a caneta e o bloco de fichário intocado na pasta tira-colo. Detestava-a, mas foi um prêmio de um sorteio. E era a única que tinha.
— Eu sei! – respondeu o outro, alongando a frase dramaticamente. – Só que, cara, eu preferia que ela negasse em vez de reclamar! Não agüento mais ouvi-la falando e falando sobre responsabilidade, Add. Já basta minha irmã!
Peter pareceu ter-se esquecido do assunto sobre a invasão até que Adam teve que lembrá-lo. As sobrancelhas grossas estavam duras sobre os olhos castanhos. O cabelo preto que caía até os ombros estava solto, e não preso como de costume. Peter ia de cabelos presos para a escola, e os usava soltos o restante do tempo, principalmente nos lugares que freqüentava. Peter era um roqueiro assumido.
— Não vai querer saber o resto da história? – perguntou Adam, quando os dois saíam para o corredor do terceiro andar. As turmas de terceiro ano caminhavam sobre papos alegres pelo corredor apertado demais para todos eles. O jovem antiquário teve de quase gritar pra se fazer ouvir para o amigo.
— AH! Esqueci, me conta! Que aconteceu?
Adam deu de ombros, com um meio sorriso.
— Na verdade nem tem resto. Não acharam nada, o parceiro dele ficou lá pelo resto da noite, mas acho que eu só tava vendo coisas.
Peter fez uma cara de decepção e ficou em silêncio, pensando em algo que a polícia pudesse ter esquecido. Ele queria que tivesse havido alguém lá à noite, teria sido legal.
— E os telefonemas estranhos? – lembrou-lhe esperançoso. Adam riu das esperanças que seu amigo tinha sobre a invasão de sua loja.
— Ah, o que têm eles? Eram o que eram, só estranhos.
Agora eles já desciam as escadas, que eram mais amplas e davam vazão com mais segurança para as cinco turmas dos veteranos de West Fox High.
— Que isso, deixa de ser despreocupado, podem ligar de novo hoje à noite!
Adam gargalhou agora.
— Você quer mesmo que eu esteja ferrado, né? Aliás, o que teria pra roubar na loja? – Ele evitava falar o nome de sua loja. Não queria parecer presunçoso com se estivesse fazendo propagandas de seu negócio quase decadente.
— Mas, cara, seria muito irado e você sabe disso! Talvez até os caras do basquete gostassem dessa história. – disse o roqueiro, os olhos pretos faiscando.
— E porque você acha que eles não gostariam de nenhuma outra? Sabe, eles não são brutamontes valentões. – Apesar de medirem 30 centímetros a mais que nós, pensou.
— Ah, pra você... Gente como eles não costumam gostar de gente como eu.
— Você anda vendo muitos filmes colegiais, Pete. Quando foi a última vez que você viu um nerd enfiado na lata de lixo aqui?
Peter ficou quieto, parecendo se lamentar por compartilhar seu “mundo particular” com Adam. Aparentemente ele achava que vivia numa escola de grupos como nos filmes, mas não era verdade. Pelo menos não que Adam soubesse.
É claro que West Fox tinha a equipe de basquete, de futebol, as patricinhas, os músicos e todo o resto. Apenas não havia atrito entre as porções. Em seus três anos ali, Adam jamais brigara, vira uma briga, ou ouvira alguém dizendo que tinha motivos para começar uma.
Debaixo dos portões da escola, que era ligado a dita cuja por uma estrada de pedra ladeada pelas vagas do estacionamento, Peter segurou Adam pelo braço mais uma vez, como fazia várias vezes por mês.
— Carona hoje? – ofereceu, visivelmente sem esperanças.
— Não, cara, valeu. Vim de bicicleta. – sorriu Adam orgulhoso, apontando para o outro lado da rua, onde sua bicicleta estava acorrentada à grade do estacionamento de um restaurante árabe. Os donos certamente não gostavam, mas o antiquário era cuidadoso o suficiente para acorrentá-la atrás de arbustos onde não ficava visível.
— Os árabes ainda cortam sua cabeça se descobrem... – riu Peter.
Adam sorriu, parecendo extremamente satisfeito consigo mesmo por desafiar os donos do restaurante com uma bicicleta.
— Eles não são terroristas, sabia, Pete?
— Isso não significa que são bonzinhos, Add. – Disse Peter, girando a chave de seu carro no indicador.
— Ah, eu aceito carona, Pete! – a cheia de energia de uma moça veio detrás dos rapazes.
Eles se viraram já sabendo quem era. Adam sorria para vê-la, mas Peter parecia apavorado.
— Ei, Lilly. – cumprimentou Adam, as mãos nos bolsos da jaqueta. Estava frio, nublado e parecia que ia chover. Dia típico do outono de Roule County.
A moça de cabelos loiros e curtos ficou na ponta dos pés e deu um beijo estalado no rosto de Adam. Estava usando um casaco cheio e pesado, de cor bege, que combinava com seus olhos cor de mel. Usava luvas de couro e vestia, como todos na escola, calças jeans. Nem as patricinhas se arriscariam a uma saia nesse tempo. Não pelo frio, mas pelo vento. Elas não iriam querer lufadas de ar levantando suas saias e mostrando suas lingeries de grife. Aparentemente o restante masculino da escola discordava firmemente desta decisão. Isto posto, fica claro que os dias quentes e ventosos eram os mais divertidos em West Fox High.
— Oi, Lílian. – disse Peter, já esperando uma reação desaprovadora de moça baixinha. Era pelo menos um palmo mais baixa que eles.
— Vai me levar pra casa, né? – perguntou, fusilando-o com os olhos.
— Claro, maninha! – aceitou sem pestanejar, encrencado, enquanto ia junto da moça até o carro.
Lílian era a irmã mais nova de Peter. Peter e Lílian Belmont tinham uma relação fraternal bem peculiar. Apesar dele ter 18 e ela 15, parecia ser ela a mais velha, mais responsável, mais inteligente e mais madura. A única coisa em que Peter realmente se mostrava mais velho era quando dirigia. Mas assim que a pequena Lilly tivesse idade suficiente, isso mudaria. Apesar de atritos e conflitos, os dois se davam bem, sem se dar conta disso. Eram muito parecidos.
Adam riu. Conhecia os dois desde os 7 anos de idade e pôde ler algo furioso e ressentido nos olhos de Lílian. Parecia estar nervosíssima com o irmão. Eu gostaria de ver essa.
― Ei, Pete, acho que quero uma carona, sim. – os dois se viraram. Lilly não mostrou reação, mas Peter o olhou com reprovação e pavor.
Ele se aproximou do ouvido de Adam e sussurrou.
— Por que quer ir, cara, sabe que ela vai falar pelos cotovelos... – disse, tentando não tornar as coisas mais constrangedoras. Já era difícil receber sermão da irmã e a presença do melhor amigo não acalentaria as coisas.
— Pra ver o circo pegar fogo. – disse o jovem a seu amigo, sorrindo e piscando.

6
Sempre gostei do carro do Peter, apesar de ser velho, lento e ter um for cheiro de sapateiro no interior. É um Chevrolet e não sei se estou certo, mas diria que é um Camaro. Era verde escuro, ou fora preto quando fabricado.
De qualquer forma, já me preparava para uma viagem muito divertida até a loja. Adorava ver Lilly nervosa.
Adam insistiu para sentar ao lado de Peter na frente. Lílian não entendeu o motivo, mas ele sabia que se estivesse ao lado do irmão, brigando com ele quanto dirigia, corriam um sério risco de se machucarem. Peter não era um ás do volante e Lílian não era uma moça muito controlada. Inevitavelmente, ela foi atrás.
Sabendo das suscetíveis agressões físicas, Adam ficou em silêncio até que chegassem à esquina da rua. E Lílian também esperou, um pouco, mas logo começou. Adam não pode evitar um sorriso.
— Então, Peter, saiu tão apressado essa manhã...
Ele ficou em silêncio. Estava com o olhar fixo na estrada, mas parecia realmente nervoso sobre o rumo que a discussão ia tomar. Ele nunca estivera assim.
— Adam, querido, você não imagina minha surpresa – o sarcasmo inundava seu tom de voz, e apesar dela ter dito o nome de Adam, seus belos olhos fitavam a nuca do irmão pro trás do banco. – quando acordei hoje de manhã e, depois de me arrumar e tomar meu café, descobri que meu irmão, minha carona, já tinha saído de casa há mais de 20 minutos. E melhor ainda, não imagina como eu fiquei quando descobri que estava chovendo canivetes lá fora! – a este ponto, ela já falava mais alto.
— Que barra. – disse ele, e Peter pareceu querer enfiar o carro num poste só pra matar Adam.
— Lilly, maninha... – tentou ele, em vão. Foi atropelado pela voz da pequena irmã.
— Mas sabe, Adam, eu achei que estaria tudo bem, afinal eu só teria que esperar meu pai sair pra trabalhar e pegaria uma carona com ele!
Peter olhou o retrovisor pra ver quão ruim estava a situação. A expressão que viu no rosto de Lilly o fez se arrepender de olhar.
— Se meu irmão não tivesse sumido eu não teria que esperar... Não é mesmo, Peter Terrance Belmont?! – ela deu um soco no banco do irmão por trás.
— Lilly, eu tive que sair mais cedo pra... – novamente, foi atropelado.
— Ah, mas minha manhã não acabou aí! Eu fiquei mais surpresa ainda quando papai levantou 40 minutos atrasado dizendo “puxa filha, que noite longa!” – ela o imitou falando com a voz grossa e rouca. – Adivinha porquê? Por causa de uma queixa da Paragon, no meio da madrugada!
Então Adam sentiu um soco em seu banco, na altura da cabeça. Aparentemente, agora ele também estava envolvido no sermão.
Merda, merda, merda, to encrencado... Pra quê eu fui querer vir junto?!
— E quando ele finalmente saiu de casa pra trabalhar, eu já estava mais de uma hora atrasada pra aula... E pra combinar com essa delícia de começo de dia, quando cheguei, descobri que o professor tinha passado um trabalho super-trabalhoso pra semestre que vem. E adivinha? Como eu não estava presente, fui sorteada pra um grupo. Agora adivinhem qual grupo?
Peter engoliu em seco, e Adam também. Sabíamos que a pequena Lílian, apesar de sorridente e simpática, detestava certa garota em sua sala. Bárbara Shelton. A Bárbara Shelton. A jovem de cabelos pretos e olhos azuis que conseguia praticamente tudo com seu papai Deputado. Nem Adam nem Peter culpavam Lílian. A moça era realmente detestável.
— Digam, em qual grupo eu fiquei? – perguntou ela, e os rapazes perceberam que não era uma pergunta retórica.
— Ahm, daquela moça, a Julie? Vocês parecem se dar be... – outro murro atrás do banco de Peter e ele se calou, freando o carro com o susto, mas logo retomando a rua.
Adam também teve seu murro.
— Adam, diga pro seu amigo pra não ousar fazer brincadeirinhas! – disse Lílian. Adam teria ficado ressentido, mas conhecia-a muito bem para que se ofendesse com aquele tom de voz. Lílian sempre fora adorável. Era uma pena que ela tivesse tido uma manhã ruim.
— Pete, cara, só dirija... – disse numa voz baixa cautelosa para que não desse motivos para que Lilly se irritasse mais.
— E é bom aprender a dirigir apanhando porque com certeza você vai me trazer pra escola até o fim dos tempos, Peter Belmont! Nunca mais ouse sair cedo sem me avisar! Fiquei no grupo daquela Bárbara – ela acrescentou uma grande pitada de nojo à voz. – por culpa de vocês!
—Ah, Lílian não é culpa minha se... – Adam tentou argumentar. Péssima idéia.
— Porque foi chamar logo meu pai, seu paranóico? Porquê você fica vendo coisas eu vou ter que suportar aquela garota até semestre que vem! E você, seu relaxado, deixou sua irmã em casa sozinha num dia de chuva! É bom ter ótimos motivos!
E ela continuou com a reclamação. Nenhum dos dois ousou interromper, reclamar, sequer suspirar. Com sorte, ela se acalmaria antes de chegarem. Mas não antes de esmurrar seus bancos pelo menos mais 10 vezes.

7
Peter estacionou o carro à esquerda da porta de sua casa. Era branca, feita numa madeira resistente, com dois andares e um sótão. Tinha uma varanda na frente, com um banco velho que ninguém arriscava se sentar. Simples e bonita. Bem melhor do que o meu buraco encima da loja. Àquela altura Peter já tinha ligado para casa e perguntado se Adam podia ficar para jantar. Ele precisava do amigo pra sobreviver ao resto da raiva de Lílian. Adam estava errado ao pensar que ela estaria calma quando chegassem. Ela devia realmente abominar a existência de Bárbara.
Quando entraram pela soleira da porta, Lílian subiu as escadas para seu quarto sem dizer nada.
— Mãe, chegamos! – gritou, entrando. Adams seguiu-o. Os dois tiraram os sapatos na porta e descalços foram até o quarto de Peter, também no segundo andar.
Depois que os irmãos trocaram as roupas, ambos desceram para o jantar. A mãe deles, Martha, tinha acabado de sair para levar comida para o marido na delegacia.

Os três estavam á mesa, em silêncio. As cortinas e janelas estavam fechadas, e a única iluminação vinha do lustre de teto que pendia cerca de meio metro acima do centro da mesa. Eles comiam o macarrão em silêncio. Adam e Peter trocavam olhares entre si assim como olhavam para Lílian. Ela comia em silêncio, sem levantar os olhos. Desta vez, ela estava magoada de verdade, o que era incomum. Lilly era uma menina de emoções à flor da pele, então de tempos em tempos era esperado que ele se aborrecesse com algo e explodisse.
Ela pigarreou e levantou-se, levando o prato e o copo consigo para a cozinha.
— Parece que dessa vez a gente foi meio longe... – disse Peter, arrastando a ponta do garfo no prato quase vazio.
— A gente nada, eu tive motivos pra... – Adam começou seu argumento, mas deteve-se quando ela voltou e sentou-se à mesa de novo. Apoiou o rosto nas mãos e bufou, agitando as pernas por baixo da mesa.
Adam teve uma idéia.
— Ei, Lílian, porque você e Peter não vão dormir lá em casa na sexta à noite? Posso alugar alguns filmes pra gente ver. Podemos conversar e dormir tarde, vai ser divertido.
Ela ficou um pouco em silêncio, parecendo contornar os desenhos da toalha de mesa com os dedos. Digeria a idéia aos poucos e chegou à conclusão de que uma hora teria de falar com eles. E ver filmes com os dois rapazes podia realmente ser divertido, visto que ela não tinha nada melhor para o dia.
— Posso escolher os filmes? – perguntou, e tanto Adam quanto Peter se agarraram a esse lampejo de empolgação. Ela sorriu de leve e eles perceberam.
— Claro, mana, as damas mandam. – brincou Peter retirando-se brevemente da mesa nossos pratos.
Enquanto ele estava na cozinha, Lílian esticou o braço pela mesa e segurou a mão de Adam. Eles se olharam sorrindo fracamente.
— Desculpa eu ter gritado com você e ter te chamado de paranóico hoje... – disse ela com sinceridade.
— Relaxa, Lilly. Tô acostumado com seus surtos de raiva. – Adam desculpou-a.
— Só que ele não esperava que você fosse descontar nele hoje, também. – Peter voltava da cozinha com uma grande taça de sorvete e três colheres.
— Oba! – disse Adam, debruçando-se sobre a mesa pegar sua colher e lambê-la.
— Mano, desculpa ter gritado com você também. Apesar de você estar errado de qualquer forma... – disse ela, e em seguida riu. Lílian não era o tipo de pessoa que passava muito tempo sem uma risada, por isso Adam gostava de estar com ela. Com o riso gostoso e contagiante da moça, os dois também riram.
— Já contou pra Lílian o que aconteceu com você ontem? – perguntou Peter, sentando-se. Ele só tocou no assunto novamente porque ainda tinha esperanças de que o amigo admitisse que não estava vendo coisas.
A moça ficou em silêncio esperando que Adam começasse a falar, mas ele não começou até depois de mais duas colheradas no sorvete. Respirou fundo e contou novamente o que aconteceu.
...

— Adam, e se ele voltar lá? – perguntou ela. Exatamente como seu irmão, esperançosa pela insegurança do amigo. Bem parecidos, pensou ele de novo.
— Já disse que não era ninguém, só tive a impressão de ver alguém, nada mais. – repetiu ele, mas sabia que ia ser difícil ficar na defensiva com os dois se unindo contra ele.
— Se você acha que só estava vendo coisas, então porque ligou pra polícia? – atacou Peter, a irmã concordando energeticamente pelo outro lado da mesa.
— Porque eu estava morrendo de medo, ora! Se vocês acordassem de madrugada com as portas de casa abertas e ouvissem barulhos também iam ficar com medo! – retrucou.
— Ah, então você admite que ele fez barulho! – Lílian se empolgava cada vez mais.
— Foram os gatos, Lílian... – ele debruçou sobre a mesa. – Olha, gente, parem de tentar me colocar em perigo porque eu tenho certeza que se tivesse mesmo um invasor vocês iam se arrepender de falarem desse jeito.
— Ah, pára de ser dramático, seu mariquinha! Tá com medo, né? – provocou Pete dando-lhe um soco no braço
Adam bufou. Estava ficando pressionado demais. Revidou o soco e se levantou.
— Tá bom então, porque vocês dois não dormem lá esses dias? Quem sabe o invasor - Adam fez aspas com os dedos e deu uma ênfase sombria à própria voz. – pega vocês primeiro pra aprenderem a lição.
— Ótimo! – Lílian levantou-se.
— Boa, gostei! – disse Pete ao mesmo tempo.
Adam e Peter estranharam quando ela saiu da sala para o corredor e começou a subir as escadas.
— Lilly, o que você ta fazendo?
— Pegando umas roupas, ué! – berrou ela em resposta.
— Ela ta falando sério? – perguntou Peter sem precisar de resposta. Ficou um tempo parado na espera de que ela disse algo mais, em vão.
— Vai pegar umas roupas também. – disse Adam.
— Ah, tá... – disse ele com desdem. – Não preciso levar roupa, pego emprestado de você. – respondeu, limpando a taça de sorvete com o dedo.
Adam sentou-se no peitoril da janela e cruzou os braços. Chovia lá fora e o barulho das gotas no vidro era constante. Ele gostava.
— Cueca, não. – foi sua palavra final.

8
Os três foram para a Paragon no Camaro de Peter. Ele tomava cuidado ao dirigir na chuva agora que era noite. No banco de trás, Lílian ouvia música no iPod ao lado das mochilas com o material escolar e uma terceira bolsa com suas roupas. E é claro, as cuecas de Peter.
— Quanto você calça, Pete? – perguntou o antiquário, olhando o tênis All-Star cinza que o amigo usava pra pisar nos pedais do carro. Adam achou que o estofado da velha poltrona da Paragon parecia mais conservado que o calçado.
— Não sei... Acho que 40.
— Você calça 42, Pete. – disse Lílian atrás. Ela tinha tirado um dos fones.
— Sério?! – perguntou ele surpreso. Adam e Lílian riram. – E pode ir esquecendo, Adam, não quero que você gaste seu salário pra me dar um tênis. Só aparecer pra comer bolo já é o suficiente. A gente sabe quanto você tira com aquela loja. – Tirava pouco.
— Tá, talvez não um tênis, mas vou dar alguma coisa. Não vou deixar mais esse aniversário passar despercebido.
— Ai, Adam, que coisa, ainda falta um mês. – disse Lílian, quando Peter virou para entrar na rua de Adam.
Lílian tomou um susto quando uma motocicleta azul passou ao lado deles na contramão, como um borrão. Nem o barulho da forte chuva abafou o som grave e penetrante do motor, que fez o motor do Camaro de Peter parecer uma bruxa com asma.
— Nossa! – exclamou Adam. – Que cara maluco, quase vem pra cima da gente!
— Nunca tinha visto uma moto assim aqui na cidade... – comentou Peter estacionando em frente à Paragon.
Eles desceram às pressas do carro e se molharam bastante até entrar na loja.
— Deve ser um bacana da cidade grande. – comentou Lílian, entrando primeiro.
Os dois irmãos entraram na frente comentando o básico sobre a decoração de século XVII da loja. Peter comentou sobre um vaso decorativo que ficava ao lado da estante de livros. Lílian lia as lombadas na nova coleção de enciclopédias que chegaram e ela tinha o mesmo sorriso cético, torto e atraente no rosto.
—Que língua é essa, Adam? – perguntou Peter, passando os dedos pelas inscrições na lateral do vaso.
— Mandarim, acho. – respondeu, lembrando-se de algo que seu avô o havia dito há mais de 3 anos. – “Coisas escritas em línguas que você não entende sempre valem mais!”.
Os dois olharam para o antiquário, e perceberam que ele estava num momento nostálgico.

Dez minutos depois, os três estavam na sala, no andar de cima, tentando encontrar algo agradável pra se ver na televisão. Sempre fora algo complicado, pois Peter gostava de ação e documentários, Lílian gostava de comédias e programas de auditório, e Adam simplesmente não gostava de assistir televisão.
— Eu ganhei esse DVD do Piratas do Caribe no começo do ano, pode ser? – perguntou o anfitrião, ajoelhado ao lado do móvel, procurando qualquer coisa que servisse.
— O primeiro filme? Que velharia, cara, aqueles zumbis esquisitos... – resmungou Peter, e pareceu se iluminar com a própria frase. – Tem algum filme de mortos-vivos aí?
Lílian surpreendeu aos dois quando falou, a voz mais empolgada do que eles esperavam.
— Adam, não chegaram filmes novos na locadora aqui da rua? – perguntou, olhando esperançosa pros dois.
— O que você quer pegar? – perguntou Adam. Teria se oferecido pra ir, mas Lilly preferia ir por si mesma, orgulhosa como o pai.
Mas ela já estava remexendo os bolsos do próprio casaco, procurando dinheiro.
— Já volto, meninos. – despediu-se, descendo as escadas.

Peter e Adam não sabiam se ela demoraria, então aproveitaram o tempo curto que tinham para conversar sem que ela interferisse. Silenciosamente, um já sabia o que o outro queria conversar, pois desde a crise familiar no carro de Peter, uma coisa ficara pendente entre eles.
— Porque você saiu cedo de casa hoje de manhã? – perguntou Adam, lembrando bem que ele não dera uma justificativa para a irmã no carro.
Peter respirou fundo e sentou-se no chão, encostando no móvel onde ficava a TV. Ele estava olhando para o próprio colo, sorrindo quase orgulhoso, mexendo no botão do jeans.
— Responde Peter! – insistiu Adam, mas pela reação do amigo já estava óbvio que não era nada que ele devesse se preocupar.
O amigo roqueiro ergueu o rosto.
— Sabe uma garota do primeiro ano? Cabelo castanho claro até o ombro, mochila branca e rosa? – disse ele, ainda sorrindo de lado.
O antiquário pareceu pensar por um momento.
— Que anda com outras duas, feinhas, que moram do outro lado do mercadinho? – perguntou.
— É...! O nome dela é Amanda. Não sei porquê, mas semana passada nós começamos a nos falar por acaso na hora do almoço... E continuamos nos falando, e falando... E eu acabei me oferecendo pra ir buscá-la em casa e levá-la pra escola um dia desses.
Adam riu alto, uma gargalhada que gostava de usar para desdenhar os amigos.
— Quer dizer então que Peter Belmont conseguiu um encontro depois de, o quê, 7 meses? – brincou. O último relacionamento de Peter não tinha terminado em bons lençóis, meses atrás, e ele dissera com convicção que iria se privar de mulheres por um ano. Parece que ele se adiantara 5 meses.
Ele balançou a cabeça rindo, sabendo que Adam faria graça da promessa que ele quebrara, mas Peter estava feliz demais pra deixar que as memórias do antigo namoro e a implicância do amigo o desanimassem.
— Adam, ela é... Diferente... Além de bonita, simpática... Ela é uma pessoa fácil de conversar. É como se fosse conversar com você, só que muito melhor. – disse Peter, começando a rir. Adam o acompanhou.

Lá fora, Lílian caminhava debaixo das marquises das lojas, braços cruzados na frente do peito. A temperatura decaíra da noite passada para a manhã do dia, e mais ainda à noite. Ela se arrependeu de não ter pego a touca em sua gaveta. Tinha dito pra si mesmo que aquela coisa brega só deveria ser usada quando absolutamente obrigada pela mãe, mas agora que suas orelhas iam ficando mais avermelhadas, ela começara a considerar as paranóias de sua mãe aceitáveis. Mas ela mesma não se culpava por sua negação ao agasalho; a touca tinha sido tricotada por sua avó quando ela tinha idade pra sequer brincar de boneca. Tinha pompons e... Lílian sacudiu a cabeça pra manter o corpo agitado e de certa forma rejeitar o frio por mais tempo. Caminhava olhando para os pés, acompanhando um ritmo rápido até a esquina.
E então, enchendo seus ouvidos como se viesse de todas as direções, o trovão que era o ronco da motocicleta se fez ouvir por toda a rua.

9
A motorista da moto azul desligou o motor do outro lado da rua, na altura da locadora e depois de tirar o capacete prateado, atravessou a rua. Lílian o observava curiosa. Talvez pudesse ver alguma coisa sobre ele que pudesse indicar de onde era.
A curiosidade da moça apenas foi aguçada quando o homem a encarou brevemente antes de empurrar a porta de vidro da locadora e adentrá-la. Ela o viu por tempo suficiente para saber que ele não era da cidade. Pela grossa chuva que caía, não pôde discernir seus traços, mas sem dúvida não era muito mais velho que ela. E, segundo a noção etária que ela tinha, ele deveria estar cursando a mesma escola, se morasse ali.
Enquanto devaneava sobre isso, mal percebera o seu quase deslizar até a porta da loja. O frio já estava esquecido, agora que seu corpo estava formigando.
A jovem sentiu onda intensas de conforto pelo corpo quando entrou na locadora, parecendo atravessar uma parece quase tangível de ar quente. O cheiro característico de plástico e papel e carpete molhado invadiram suas narinas, fazendo-a relaxar. E, ela sentiu fracamente, uma fragrância elegante no ar, cuja origem não associou logo.
No centro da loja, atrás do balcão quadrado de madeira velha, onde estavam colados vários cartazes e papéis com promoções impressas em fontes de muito mau-gosto, estava o senhor atendente, com seus aparentes 50 anos. Faixas de cor branca se espalhavam por sua barda em todo o rosto, mas seu cabelo liso e oleoso era completamente preto. Porque ele não tinge a barba também?, perguntou-se Lílian.
Para uma locadora de esquina com renome algum, o repertório até que era surpreendente. Estantes por todas as paredes da loja tinham prateleiras com filmes separados por gênero, e iam até o teto. Entre duas estantes, havia uma porta estreita de madeira fechada, que provavelmente levava para os fundos da loja. Na estante justamente ao lado, Lilian bateu os olhos na seção de filmes de horror, e sem pestanejar, se aproximou. O rapaz da moto estava próximo, na seção de suspense, com sua jaqueta preta e o capacete prateado. Passava as mãos pelo cabelo curto e arrepiado, respingando água ao seu redor. Usava calças jeans esverdeadas cujas pontas estavam encharcadas. Seus tênis pareciam ser muito mais novos do que uma pessoa normal usaria numa noite tempestuosa como essa. Chegando ao lado dele, Lílian tentou controlar sua curiosidade para não olhar para o lado e ver seu rosto, o que ela conseguiu fazer muito bem até que ele espirrou. Por reflexo, ela olhou.
Ele tinha a pele morena clara e as sobrancelhas bem desenhadas, apesar de grossas. O nariz, de perfil, era bem torneado e tinha uma proporção exata com relação ao resto do rosto que era delicado. Os olhos eram castanhos, quase negros como o cabelo, e os lábios nem carnudos nem finos. Era um rapaz bonito o suficiente pra ser modelo, se assim ele desejasse, mas discreto o suficiente para passar despercebido numa multidão. Lílian o achou lindo.
— S-saúde. – disse ela, sorrindo sem se controlar. Pelo que ela constatava agora, era a primeira vez que gaguejava ao falar com alguém.
Ele se virou, tirando as mãos do rosto ao dar uma leve e baixa risada.
— Obrigado... Não esperava pegar chuva aqui. – disse. Sua voz era quase feminina demais, porém forte. Lílian não teria gostado, mas achou que ela o servia perfeitamente.
Lílian não soube bem o que dizer em resposta ao rapaz, então voltou a procurar por um bom filme de terror antes que o encarasse por tempo demais. Teve a impressão de que ele ainda a fitou por uns instantes antes de voltar a procurar seus próprios interesses na coluna de suspense. A possibilidade dele tê-la olhado por um instante a mais que fosse a deixou corada, e ela achou muito conveniente que ele já tivesse voltado aos filmes. Talvez ela devesse fazer o mesmo.
A maioria das capas que viu não chamou sua atenção de forma alguma. As poucas as quais ela se dava ao trabalho de olhar mais demoradamente tinham títulos repulsivos como: Fast-Food da Morte. Ela teve de se segurar para não dar uma risadinha. Não sabia se ainda estava corada e não queria atrair a atenção do motoqueiro. Quanto aos títulos interessantes, como Meia Noite, quando lia a sinopse, se arrependia e os devolvia a prateleira. Quanto mais procurava, mais achava péssima a idéia de ter vindo até ali sozinha no frio.
— Acho que geralmente as moças procuram suspenses e os caras procuram terror, né? – o rapaz puxou assunto de novo, sem olhar para Lílian. Tinha um filme em cada mão e parecia indeciso.
— É... Estou tentando escolher um pra ver com meu irmão. – disse, antes que ele pudesse pensar que ela era uma louca masoquista.
Ele devolveu um dos filmes à prateleira e leu novamente a sinopse traseira do que restou em sua mão. Parecia estar se decidindo. Ele tinha expressões claras como água, fáceis de ler, como se seu rosto pudesse transparecer praticamente qualquer pensamento superficial, certeza ou duvida, que pairava por sua cabeça.
— Me ajuda a decidir? Posso te ajudar também, se você quiser é claro.
Ah, eu quero! Pensou, quase em voz alto. Segurou a frase pouco depois de abrir a boca pra falá-la. Fechou-a novamente e pigarreou, enquanto o rapaz esperava educadamente por uma resposta.
— Sem problemas. – disse, tentando não parecer empolgada. Ela se saiu bem visto que a expressão dele não se alterou.
Ele finalmente dirigiu os olhos para ela. A diferença de altura entre os dois não era gritante, e Lílian não entendeu bem porque se sentiu nauseada ao encará-lo de frente. Seus olhos negros estavam fixos nos seus. Mas eram diferentes, quase indecisos. Como se a estivesse encarando e ainda assim, não estivesse olhando-a diretamente. Lílian chegou a considerar retribuir a intensidade incógnita do olhar dele, mas achou melhor não. Ela poderia fazer caretas enquanto tentasse.
— Esse aqui é sobre um assalto a banco, tem umas traições, intrigas, tiroteio... Mas já vi vários do gênero... Já viu esse? – ele mostrou-lhe a capa.
Lílian já tinha visto, claro. Adorava o ator protagonista, e o resto do elenco era muito bom. A história era excelente. Talvez fosse a melhor sugestão que ela pudesse dar.
— Ah, já! É muito bom, sim; e diferente. Com certeza você não viu nada parecido. – disse, segurando o DVD pelo outro lado, olhando a capa também.
Ele pareceu pensar por muito mais tempo do que realmente se passou, por fim respondendo:
— O.K., então é esse. – concordou, sorrindo. – Agora vamos arrumar um bem sangrento pro seu irmão.
Tocando as palmas das mãos suavemente em seus ombros, ele deu a volta por trás dela para que pudessem ficar lado a lado de frente para a estante do terror.
Ele baixou o zíper do casaco com o som característico e colocou as mãos nos bolsos. Lílian duvidou que ele fosse indicar um filme logo de cara, e estava certa. Ele parecia tão desestimulado com o segmento de terror quanto ela.
— Seu irmão tem senso de humor? – perguntou casualmente, depois de pouco tempo.
— Ahn... Tem. – disse. Essa pergunta nunca tinha vindo à tona. Ela se divertia com o irmão ocasionalmente, mas nunca o definira como bem ou mal humorado. – Não sei direito, mas diria que sim.
— Então leva esse... – disse, se abaixando e pegando um da segunda prateleira mais baixa. – É um dos mais ridículos que já vi. Dá pra dar umas boas risadas, já que susto mesmo vai ser difícil aqui...
Ele foi esperto o suficiente para baixar o tom de voz nessa ultima frase. O atendente não parecia estar prestando atenção, mas não havia mais ninguém por perto e um par de adolescentes na seção de terror não seria uma má coisa para se ouvir.
Lilian concordou com um sorriso espontâneo que ela logo tratou de querer diminuir. Sorrisos exagerados não eram corriqueiros para ela. Na verdade, estava se sentindo muito desajeitada e exagerada ao lado do motoqueiro, talvez por saber que ele é de fora da cidade, mas provavelmente pela presença que transbordava. Era simpático, atraente e discreto. Além disso, a moto parecia cara, no entanto esse adicional não passou pela a mente da pequena.
Os dois se dirigiram ao balcão com os filmes sugeridos pelo outro em mãos.
Depois da demonstração de atenção, senso de humor e esperteza dele, Lílian, em seu subconsciente assumiu que ele fosse um cavalheiro e que fosse deixá-la passar primeiro. Seu subconsciente foi silenciado quando ele apressou-se para o caixa, passando ao lado dela com rapidez. Deixou o filme no balcão e tirou a carteira de couro marrom do bolso de trás do jeans. Lílian não reparou, mas o jeans estava rasgado na canela, onde havia um fino corte e a mancha tênue de sangue. Ele deixou uma nota de 50 sobre o balcão e acenou com a cabeça para Lílian.
— O dela também, por gentileza.
Lílian ficou confusa. Ele estava se oferecendo para pagar? Por quê?
O balconista, grosseiro e silencioso, tomou o filme das mãos da moça e passou na máquina, o clássico beep ecoando pela loja.
Com o pagamento efetuado, Lílian começou a argumentar, tarde demais.
— Não precisava ter feito isso, moço, sério, eu trouxe... – o telefone da loja então tocou, soando quase brutal naquele silêncio em que só a voz dela se fazia ouvir.
O atendente demorou mais 3 toques para tirá-lo do gancho, levantando preguiçosamente de sua cadeira giratória e caminhando monotonamente até a outra ponta do balcão.
— Locadora Rock Video, boa noite...? – disse, numa voz arrastada. Se Peter estivesse ali, diria que ele tem a voz certa para dublar vilões de desenhos animados. – Alô?
Ele falou ao telefone sozinho por 10 segundos, parecendo não receber resposta. Lílian, distraída demais para detalhes assim, não percebeu novamente, mas o motoqueiro, que conferia o troco, ficou imóvel. Tentava ouvir o que pudesse da ligação, apesar de só o homem de cabelos oleosos falasse algo. Se Lílian estivesse de frente para ele, e pudesse ver seu rosto facilmente legível, diria que ele estava preocupado, assustado e surpreso. Ou talvez apenas com raiva.
— Vamos sair logo daqui... – com abuso, ele fechou os dedos ásperos ao redor do pulso de Lílian e a puxou para fora da loja, apressado.
— Hey, o que foi? Porque essa pressa? Me solta! – reclamou a jovem. Ter as maravilhosas características que tinha não o dava o direito de fazer isso com ela.
Do lado de fora da loja, o frio retomou Lílian, mas seu corpo estava quente com a excitação do momento.
— Você mora aqui perto? Consegue chegar rápido em casa? – perguntou, e então Lílian viu seu rosto. Assustada como estava agora, ela interpretou como se fosse apenas uma má intenção. Porque um desconhecido perguntava onde ela morava?
Agora tudo fazia sentido. A gentileza do pagamento, a simpatia um tanto exagerada, o contato físico. Ele não poderia ter boas intenções.
—Me deixa em paz! – Lílian fez como nos filmes que seu irmão viu. Com a palma da mão, acertou em cheio a ponta do nariz do rapaz, e ele se afastou imediatamente.
Exceto que não foi nada como nos filmes, com gritos e torrentes de sangue. Ela teve certeza de bater forte o suficiente para quebrá-lo, mas o nariz não entortou e ela não ouviu barulho algum. Um tímido filete de sangue escorreu.
Ela não deu tempo para uma reação por parte do agressor, pondo-se a correr a toda sua capacidade de volta para a Paragon, gritando por Adam e Peter e por qualquer socorro que pudesse receber. Muito antes de chegar à metade do caminho, o trovão da motocicleta rugiu por todo o lugar. Lílian achou que estaria morta muito antes de rever o irmão e o amigo, mas o som da moto não se aproximava, se tornava mais distante.

10
Era a segunda vez em noites consecutivas que a Dep. de Polícia de Roule County recebia um chamado do Antiquário Paragon. Diferente da noite anterior, esta ligação seria uma queixa sobre a filha do Chefe de Polícia, Lílian Belmont, sobre um possível assédio.
Martin Belmont estava terminado de assinar as ocorrências sem importâncias do dia para encerrar sua noite. Algumas pichações de muro, invasões de propriedade, reclamações de invasão de propriedade e só. Coisas do dia a dia, como ele já estava acostumado a lidar.
O telefone tocou do lado de fora de sua sala. Mais uma. Pensou, torcendo para que fosse algo dispensável.
— Geoffrey, Bob, cuidem dessa pra mim, estou encerrando por hoje! – avisou em um tom de voz potente de sua sala. Bateu os papéis na mesa e deixou-os numa pastas carmim, apagando a luminária. Puxando o casaco da cadeira, vestiu-o às pressas. Se chegasse rápido em casa, poderia ter a oportunidade de dar boa-noite para os filhos antes que fossem se deitar para a escola. Havia dias que não fazia isso e sentia a falta deles como qualquer pai sentiria.
Saiu da sala enquanto Bob, o policial novato e sem talento especial, atendia as ligações. Martin estava passando direto para o corredor de saída, quando foi chamado de volta.
— Ahm, chefe... – Bob chamou, o telefone contra seu ombro para que não ouvissem do outro lado. – O senhor precisa atender essa.
Martin o olhou com reprovação. Novatos eram sempre assim. Sempre que ouviam uma voz um pouco mais descontrolada ao telefone e uma queixa de aparências um pouco menos convencionais, deixavam a coragem de lado e chamavam por apoio mais experiente. Martin bufou. Precisaria ter uma séria conversa com Bob sobre isso pela manhã.
—O que é desta vez? – foi em direção a ele para pegar o telefone.
— É sua filha, senhor.

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